quinta-feira, 2 de julho de 2020

A vida na tentativa de um novo normal

Relatos de brasileiros sobre como têm agido em frente ao isolamento da pandemia de Covid-19

Por Letícia Rodrigues da Silva – 9º C 

Com as medidas de distanciamento social tomada em decorrência da pandemia de Sars-CoV-2, nome científico do novo coronavírus, as pessoas tiveram que se adaptar rapidamente a uma vida sem contato físico com amigos e familiares e, por vezes, até sem poder comunicar-se com eles.

“Se no início do ano alguém falasse que um vírus de Wuhan, na China, do outro lado do mundo chegaria ao Brasil em tão pouco tempo, isso pareceria algo ‘absurdo’, porém, em uma época na qual o mundo é extremamente interligado, vemos de perto um dos pontos negativos disso: a rápida propagação do coronavírus”, afirmou Luciana Pereira Rodrigues da Silva, profissional de saúde.

A quarentena é tida pelos especialistas como o mais eficaz método de contenção do contágio do Covid-19 até onde se tem conhecimento. Ficar em casa nesse período de pandemia é necessário para que os hospitais se preparem e para que o número de casos não cresça a ponto de lotá-los, evitando uma possível sobrecarga do sistema de saúde.

No entanto, há pessoas que não respeitam o isolamento, seja por questão de desprezo aos avisos, seja porque estão se sentindo sozinhas ou até mesmo porque o trabalho que realizam não possibilita essa parada repentina e precisam da renda para se sustentar. A estudante Karolyne Rodrigues Silva conta que está difícil conter a avó em casa. “Ela já está louca pra ir ‘bater perna’ no centro”, disse, em tom de indignação.

Já a dona Alzira Pereira Rodrigues, aposentada de 65 anos, responde que não tem sido fácil ficar direto em casa, mas acredita ser algo necessário. “Estou me sentindo presa. Apesar de querer sair, a gente já é de idade e estamos no grupo de risco, o que aumenta as chances de complicações. Se eu preciso comprar algo, peço para meus filhos trazerem aqui”. Ela conta também que o medo aumentou após o falecimento de uma conhecida: “A mãe de um parente meu morreu há pouco tempo e os familiares nem puderam fazer um velório para ela”.

Leonardo da Silva, coordenador de enfermagem do Samu regional de Sorocaba, afirma que os cuidados no serviço dobraram e faz uma observação: “Agora, qualquer ocorrência com dificuldade respiratória é atendida como caso suspeito de Covid-19. O que tenho percebido foi uma diminuição em acidentes de rua, como atropelamentos e acidentes automobilísticos.”

Quanto à rotina, Leonardo diz que para ele não mudou muito e, por ter trabalhado como socorrista, já estava acostumado com certa agitação na profissão. Afirma que a quarentena possibilita um tempo de reflexão, mas confessa que lidar com a distância não tem sido tão fácil. “É uma forma de querer estar mais próximo dos familiares. Meus pais moram em outra cidade e sempre viajávamos para visitá-los nos feriados. Sem as viagens sinto saudades deles, mas essa também foi uma oportunidade de me aproximar mais dos meus filhos”, afirmou.

A professora de escola pública Leonice da Silva Pereira, que vive em Itapecerica da Serra, relata sua experiência. “Tive que me adaptar para criar aulas online. No começo foi um desafio, mas aos poucos fui me acostumando”. Ela conta também que teve que cancelar uma viagem para o Japão: “Fomos convidados a ir a Kyoto para um evento cultural que tem relação com nossa cidade, mas os aeroportos de lá fecharam poucos dias após os primeiros decretos de restrição no Japão.”

O estudante Luiggi Rodrigues da Silva aponta algumas dificuldades como aluno: “Ficar o dia inteiro em casa sentado em frente ao computador cinco dias por semana tem me causado certas dores de cabeça e nas costas”. Já em seu tempo livre, Luiggi diz ter aproveitado para aprender a jogar futebol com seu pai. “Quando tudo voltar ao normal, talvez eu possa jogar como goleiro no interclasses do colégio”, afirma, esperançoso.

Há ainda pessoas que desacreditam nos efeitos do isolamento, como é o caso do senhor Wagner Oliveira, desempregado. “A quarentena é uma perda de tempo. O isolamento deveria ser apenas para os velhos e pessoas doentes. Todo mundo vai morrer um dia, os velhos vão ter que morrer mesmo e se eu tiver que ir eu vou também”, justifica.

Para a microempresária Marinilda da Silva, as vendas melhoraram, ainda mais com a disponibilidade de entregas. Apenas relata dificuldade na reposição de estoques, sendo que boa parte de seus produtos são importados da Ásia. Com relação ao isolamento pessoal ela diz que, apesar de defender as restrições, tem saído de casa com alguma frequência: “Confesso que tenho frequentado algumas festas em casas de amigos”.

Todavia, a profissional de saúde Luciana Pereira Rodrigues da Silva alerta: “Sem o isolamento os casos aumentariam ainda mais e pessoas que precisem de assistência médica, não apenas pelo coronavírus como outros tipos de enfermidade, podem vir a óbito pela falta de leitos com a lotação dos hospitais.”

“O fato de a pessoa estar fora do grupo de risco não a torna isenta dos sintomas e de dias de sofrimento pela recuperação”, comenta a enfermeira na rede pública de saúde Márcia Cristina Ribeiro, por experiência própria. Ela pegou o vírus de uma colega de serviço. “Chegou um ponto em que pensei que fosse morrer”, conta ela, já recuperada.